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27/06/2006 08:40
Cheiro de café com leite
O cheiro do passado. Um perfume, uma comida, o odor corporal de alguém. Sendo o mais intangível dos sentidos, é impressionante o poder que o olfato tem de penetrar na nossa memória, nos conduzindo vivamente para outra década, outro momento de vida. Um desses meus cheiros afetivos é o de café com leite, que me invadiu de assalto outro dia, dirigindo para o trabalho, e me fez viajar no tempo e no espaço. Leite quente com café ou para ser bem específica, bastante leite com um pouquinho de café, e umas duas ou três colheres de açúcar.
Eu estava no Rio de Janeiro, tinha cinco para seis anos de idade. Tinha viajado sozinha com minha avó, passar uma semana ou um pouco menos, com a nobre incumbência de ser a dama-de-honra no casamento de um primo querido do meu pai. Tudo ali era especial. Eu era a única dama-de-honra do casamento uma convidada de respeito, trazida de outra cidade (o que prova que minha gorduchice sempre teve seu charme). Além disso, foi a primeira e talvez única viagem da minha infância empreendida sem o resto da família. Só eu e minha avó o que por si só não poderia ser mais doce.
Ficamos na casa onde meu pai morou quando era criança, uma casa de vila, numa rua sem saída, no subúrbio do Rio de Janeiro. Que, na época, era habitada pela Tia Poli, uma irmã de minha avó, tão querida, especial e tão avó quanto ela. Casa de velhos, como se sabe, não tem chocolate nem suco no café de manhã tem café e, com sorte, leite quente.
Eu acordava tarde e encontrava as duas irmãs entretidas em animadas conversas, acumuladas pela distância que separava o Rio de Brasília naquela época de telefone caro e comunicações difíceis. Sentava na mesa pequena da cozinha, onde logo me serviam um pão quentinho com manteiga e, em uma xícara de porcelana branca (que eu certamente não teria autorização para manusear na minha própria casa), leite quente com café.
Eu não gostava do gosto. Mas tomava assim mesmo, e com goles pequenos, sentia o sabor amarguinho-doce, e quente, da conversa das duas avós irmãs.
Voltei para Brasília poucos dias depois, trazendo em uma caixa de sapatos com três furos na tampa uma tartaruga que era da Tia Poli. E que me durante meses, ou talvez anos, foi objeto de freqüentes tropicões na cozinha da minha avó. Depois a tartaruga morreu, não me lembro muito bem como. O que me lembro perfeitamente é do cheiro do café com leite quente na xícara grande de porcelana branca.
enviada por Pequena
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