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05/05/2006 22:00
Pensamentos de abril
É o que acontece toda vez que a gente não é sincero: fica tudo fake e fica tudo uma droga.
Eu resolvi que não era porque eu tinha virado mãe que eu ia virar só mãe. Resolvi que não queria ser uma pessoa assunto-único. E me proibi de falar, escrever e pensar compulsivamente sobre a gravidez e sobre o João e o Pedro. A velha estratégia de assobiar, olhar pro lado, e fingir que nada de tão grave assim está acontecendo. Mas o resultado é que este blog está abandonado há quase um mês. E, claro, a minha auto-censura não adiantou nada porque eu continuo falando, pensando e escrevendo (em segredo) compulsivamente sobre eles.
Daí resolvi quebrar minha própria promessa e deixar fluir minhas elocubrações gestacionais. A conclusão de que ficar grávida realmente muda tudo. E nessa hora soa um alarme pela frase-clichê que acabei de escrever. Mas agora vem outra menos clichê: o tudo que muda, na verdade, não é quase nada do que a gente está acostumado a ouvir sobre a gravidez. Os efeitos dos hormônios no nosso corpo, a emoção do coração do neném no ultrassom, os enjôos tudo isso é ótimo, mas está longe de ser o mais importante. Carregar um neném na barriga (ou dois, no meu caso) é mais profundo, maior, mais emocionante e, sejamos sinceros, também muito mais apavorante do que o que está nos manuais.
É estar 24 horas por dia fisicamente colada, e ser integralmente responsável por aquilo que há de mais importante na sua vida. É ver todo o resto virar segundo plano. Eu me preocupo não só com aonde colocar a perna na hora de dormir, mas também com os pensamentos que passam pela minha cabeça e as reações químicas do meu corpo. Me concentro para sentir as vibrações que os meus filhos emitem na minha barriga desde que eles são do tamanho de uma ponta de lápis, e que ninguém acredita, mas eu sinto.
Perco o sono pensando em como continuar sendo uma pessoa autônoma e livre com duas pessoas totalmente dependentes de mim e como não acabar me viciando nisso. Me preocupo em ser cada dia mais forte e, ao mesmo tempo, mais verdadeira e humana, para que o João e o Pedro entendam como é o mundo e como a gente deve lidar com ele. Sinto saudade e sinto orgulho tanto, que às vezes é até feio.
Foi mais ou menos nessas coisas que eu passei o último mês pensando.
enviada por Pequena
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