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06/04/2006 17:01
As grandes ocasiões
Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Eu tinha 16 anos, estava no segundo ano e tinha aula de filosofia. De tudo o que eu deveria ter aprendido nessa matéria, eu aprendi esse trecho aí de cima. No livro de filosofia tinha um texto do Paulo Mendes Campos que se chamava Para Maria da Graça.
Escrito na forma de uma carta para uma menina que está completando quinze anos, o texto faz uma analogia com a história da Alice no País das Maravilhas. Lembra dos momentos em que Alice comeu um bolo e ficou muito, muito grande. E depois, quando ela bebeu um líquido, e ficou bem pequenininha, e quase se afogou no lago de lágrimas que ela tinha chorado. E nos lembra que devemos ter muito cuidado com as grandes ocasiões: quando estamos enormes e quando estamos bem pequenos.
Penso nisso sempre especialmente nos momentos em que comi o bolo e estou bem grandona. Quando caio na tentação de achar que, agora, sim, eu aprendi a viver. A gente é assim mesmo: vira e mexe, amadurecemos um pouco e caímos na tentação de olhar pra trás com um certo orgulho do degrau que conseguimos subir. Agora, sim, eu sei como é amar de verdade. Agora, sim, eu priorizo o que realmente importa. Agora, sim, eu tenho uma vida equilibrada.
É mesmo preciso ter muito cuidado com as grandes ocasiões. Toda certeza absoluta está pedindo pra ser desmascarada.
enviada por Pequena
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